Depoimento pessoal:
As palavras dos profissionais em seus depoimentos (Marilena,
Cândido e Fábio de Paula), mais do que observações sociológicas ou críticas,
guardam valores de pessoas apaixonadas e que sabem, desde muito pequenas, o
valor da leitura enquanto elemento catalisador de crescimento existencial e
cultural. Gostei da parte em que ela fala da descoberta de nós mesmos e de
outros mundos, pois foi assim que me senti quando mergulhei nas minhas
primeiras leituras de quadrinhos e contos infantis. E quando Antônio Cândido relembra e resume
muito coerentemente a humanização que a leitura permite, identifiquei-me com
isso em gênero, número e grau, pois é assim que entendo um leitor apaixonado e
sedento de conhecimentos. Vibrei positivamente, nesse sentido, com a citação da
fala de um adolescente, feita por Fábio de Paula, algo que também me assombra e
me deixa assustado com o entendimento que os meninos alunos têm desse processo
tão essencial para a história de vida.
Apesar
de estar parecendo uma introdução crítica, menos que isso, faço um recorte
daquilo que me chamou mais atenção naqueles depoimentos para, a partir das
idéias, contar um pouco da minha experiência de leitura e escrita, desde quando
iniciei minhas práticas de menino observador e ansioso por conhecer os mais diversos
tipos de textos e livros a que tinha acesso. Minha mãe era funcionária de
escola e, sempre que me levava em sua companhia para o trabalho, eu preferia
ficar explorando e me surpreendendo com os materiais impressos, livros e
apostilas, didáticos e paradidáticos (apesar de não terem esse nome), colocados
em algumas estantes que eram chamadas de pequenas bibliotecas. Foi ali que
comecei a tomar contato com os autores nacionais e internacionais (traduzidos)
que escreviam para crianças. Esse convívio fascinante e desafiador, pois havia
livros com muito texto e eu acabara de ser alfabetizado, significava algo
estimulante. Apesar de não compreender ainda certos significados, havia algo
naquelas histórias por descobrir e me apropriar que me agitava muito. E com o
passar do tempo, aprendi a separar e entender que as coisas evoluem, crescem e
servem para descobertas de outros espaços, incluindo o espaço dentro de nós
mesmos que se chama alma...
E por
falar nisso, o meu primeiro livro, chamado “O gigante egoísta”, uma história
infantil que, somente depois de adulto vim a descobrir que era uma adaptação de
um belo texto de Oscar Wilde, foi-me presenteado por minha mãe. Ela, com
certeza, nem desconfiava que o original era de alguém tão afamado e aclamado
pela crítica literária mundial. Uma história sensível e profunda, para pensar
sobre coração e espírito, e que naquela época, entendi como uma coisa singela e
cheia de ternura. Algo conspirou, me parece conveniente pensar, para que meu
primeiro conto fosse de alguém tão importante. E quando relaciono esses fatos
com o que Antônio Cândido coloca em seu depoimento, creio que nessa fase de
iniciante, meu processo de humanização, via leituras, começou a se realizar.
Depois disso, quando já dominava textos maiores, sem ter muita dificuldade com
vocabulário e sequências narrativas mais complexas, passei a devorar coleções
de grandes aventuras para jovens, livros de contos, crônicas e fábulas, e
revisitar o imaginário infanto-juvenil através de Monteiro Lobato e outros autores
em moda. Começou a se consolidar em mim aquele “refinamento das emoções” e os
primeiros “exercícios de reflexão”, possíveis em um pré-adolescente sempre interessado
em ler e saber.
A vida
escolar me ajudou sim a encontrar caminhos e propostas de ampliação do meu
universo de leitor, mas mais do que isso, o apoio e grande parte do incentivo
primário a todo esse processo (às vezes muito prazeroso, às vezes desafiador,
ou os dois) veio de familiares, parentes e amigos. Depois de amadurecido,
enquanto ser humano e enquanto ledor apaixonado, arrisquei-me a tentar escrever
textos literários de cunho narrativo. Foi e está sendo uma tarefa árdua, porém
misturada a um contentamento. Se a leitura exige amadurecimento, a escritura
mais ainda. E ainda mais quando se tenta criar situações e sequências de valor
literário. Mas é um jogo divertido e agregador; divertido porque você pode
decidir o destino das personagens a todo e qualquer momento; agregador porque
te faz perceber que ser mais maduro como leitor te faz mais crítico sobre o seu
próprio fazer de escritor. Some-se o meu ofício de ensinar leitura e escrita, e
tem-se terreno mais amplo para reflexões e análises importantes. Bem, essa
bagagem, minha jornada, meu espírito um tanto crítico, me levam a ter o mesmo sentimento
do blogueiro Fábio de Paula, quando vejo, ouço e converso com meus alunos.
Grande parte deles não fizeram certas jornadas, não acumularam aquela bagagem
tão necessária de leituras humanizadoras, e estão fadados a achar que tudo se
resolve com apertar botões, mecanicamente, sem esforço consciente, sem
interesse apaixonado pelo conhecimento e pela imensa apropriação cultural que
livros, revistas, jornais, possibilitam a todos. E o que fazer quando um menino
de Ensino Médio nem tem consciência do que é leitura (já que lê certos tipos de
revistas) e, muito menos, se dá conta de que antes de ser crítico, precisa
reconhecer ter espírito para isso??? E, mais dramático, quer ser médico...?
(Experiências comentadas a partir da opinião de Marilena Chauí, Antônio Cândido e Fábio de Paula - citados em junho/2013, neste Blog.)