O EXEMPLO DE PINÓQUIO
(César Pavezzi)*
Gepeto (que é uma
metáfora interessante de pai, criador e educador), um dia, descobre que tinha
em mãos mais do que um amontoado de pedaços de madeira juntados e atados, mais
do que uma marionete , enfim, tinha um menino, ou um projeto de menino, ser
humano em construção. Outro simbolismo para a segunda infância, pois Pinóquio,
assim “batizado” pelo criador, já nasceu criança desenvolvida e curiosa. Como
muitas que nascem nos dias de hoje, ainda que com um pai que nem de longe tem a
doçura e as preocupações de Gepeto, o velhinho. Os exemplos trazidos pela
história desse boneco podem sugerir, ressalvadas a época de produção do romance
e as intenções ideológicas do autor, uma comparação bastante próxima ao universo
em que estão mergulhados nossos aprendizes da atualidade.
Como todo pai
zeloso e empenhado na educação de filhos, Gepeto logo decide que Pinóquio
deveria frequentar a escola. Decisão sábia, porém sem muito peso na consciência
de um boneco de madeira que, ao longo das circunstâncias impostas pela história
narrada, teria que lutar muito para se tornar um ser humano, menino de carne e
osso, um desejo genuíno do próprio pai. O que existe de profundo e cíclico aqui
é o fato de que todo criador tem essa vontade profunda de que sua criatura
melhore, cresça, intelectual e emocionalmente, para conseguir ser reconhecido
verdadeiramente como alguém, gente, humano e mais preparado para o mundo.
Discurso semelhante ao de todo pai quando cobra seus filhos sobre a importância
de estudar, empenhar-se na escola.
Claro está que
uma “consciência” de boneco não estaria tão preparada ou orientada para as
tentações do novo mundo que se abrira para Pinóquio. Não muito diferente do
mundo de hoje, salvo na roupagem tecnológica que ganharam alguns tipos de
distrações e lazeres, com certeza bem mais interessantes que as carteiras de
escola e as atividades intelectuais propostas. E nesse caldeirão de
influências, que no livro são representadas por criaturas inescrupulosas e
enganadoras, as crianças não sabem (ou não querem) distinguir o que é mais
importante para sua vida de “bonecos” deslumbrados com os espetáculos,
portáteis ou massificadores, que o mundo midiático e consumista lhes oferece
diariamente.
Ainda que haja
“grilos falantes” e “fadas”, outros símbolos positivos na vida do menino, ou
melhor, boneco, o grande circo de distrações e maravilhas aberto aos seus olhos
e à sua imaginação funciona como o anestésico atrofiador de algum rasgo de
consciência que seus verdadeiros amigos possam esperar de sua atitude. E a
mentira entra como parte desse aprendizado torto, onde levar vantagem e não ser
punido nem sempre conseguem impedir seu “nariz” comprido de denunciá-lo, e
muitas vezes de se envergonhar. Já que ainda é um boneco-menino e não aprendeu
certas malícias reservadas à vida de adulto.
O recurso
utilizado como representação também simbólica de que, assim como Pinóquio, os
meninos que fugiam da escola, acabavam se emburrecendo, literalmente (inclusive
nos aspectos físicos e na mudança do jeito de falar quase zurrando), sugere o
distanciamento que hoje se pode constatar entre o ir à escola, mas não querer
frequentar as aulas, justamente porque o trabalho intelectual a ser enfrentado
não é percebido pelos meninos como importante e educativo. E o boneco paga um
preço por não querer se instruir, e construir uma mentalidade intelectual, que
é ver-se na pele (literalmente) de todos os meninos-burros mostrados pelo
narrador como fugitivos das aulas. Nesse ponto da história, Gepeto já nem sabe
mais do paradeiro de sua criatura, concretamente perdida, tanto para o mundo
externo quanto no seu mundinho interno. E que depois vai virar comida de peixe,
outra brilhante metáfora para o quase-fim, ou quase-morte, alimentada pelo
próprio Pinóquio, ao se afastar enormemente da educação proposta pelo seu
criador, e por ter somente orelhas de um burro, já que nem assim conseguia dar
ouvidos aos conselhos de sua “consciência” (o grilo), ou de sua influência boa
(a fada). Qualquer semelhança com o que acontece com nossos meninos aprendizes
da modernidade não é mera coincidência.
A transformação
gradativa do boneco para virar um menino ainda impõe obstáculos bíblicos,
tornando muitos momentos do final da narrativa opressivos e tristes, quando
pensamos que se trata de uma “criança”. A dificuldade final que se coloca a Pinóquio,
e que vai funcionar como prova material de sua mudança de atitude, é o resgate
de seu criador, engolido por uma enorme baleia. Imaginação à parte, a
sobrevivência de Gepeto fez-se necessária para que a história mais uma vez nos
premiasse com a maior parábola da Vida: o ciclo tinha que se completar para que
criador e criatura pudessem se reencontrar. E que nessa revelação causada pela
nova atitude do boneco estivesse implícita a vontade de mostrar ao “pai” o novo
ser que se tornou, mesmo ainda sendo “boneco” de madeira. Enfim, Gepeto é
encontrado pelo “filho” arrependido e fica feliz por finalmente conseguir que o
mesmo se torne um ser humano de verdade (ainda que haja a intervenção da fada
boa nessa metamorfose). Agora, Pinóquio tem possibilidades de ser mais feliz,
sem esquecer que poderia ter evitado todos os percalços cinzentos e sofridos
pelos quais passou desde o começo de sua criação, se houvesse mantido uma
postura mais de menino, e menos de boneco. Mais de ser “humano” e menos de
marionete, mais intelectual e menos alienado da realidade.
(PINÓQUIO,
traduzido e versionado em vários idiomas, é do italiano Carlo Collodi).
*
César Pavezzi é pseudônimo de Fernando César Ferreira, autor desse ensaio.
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