terça-feira, 9 de setembro de 2014

História de um conhecido aprendiz...

O EXEMPLO DE PINÓQUIO
(César Pavezzi)*
                               Gepeto (que é uma metáfora interessante de pai, criador e educador), um dia, descobre que tinha em mãos mais do que um amontoado de pedaços de madeira juntados e atados, mais do que uma marionete , enfim, tinha um menino, ou um projeto de menino, ser humano em construção. Outro simbolismo para a segunda infância, pois Pinóquio, assim “batizado” pelo criador, já nasceu criança desenvolvida e curiosa. Como muitas que nascem nos dias de hoje, ainda que com um pai que nem de longe tem a doçura e as preocupações de Gepeto, o velhinho. Os exemplos trazidos pela história desse boneco podem sugerir, ressalvadas a época de produção do romance e as intenções ideológicas do autor, uma comparação bastante próxima ao universo em que estão mergulhados nossos aprendizes da atualidade.
                               Como todo pai zeloso e empenhado na educação de filhos, Gepeto logo decide que Pinóquio deveria frequentar a escola. Decisão sábia, porém sem muito peso na consciência de um boneco de madeira que, ao longo das circunstâncias impostas pela história narrada, teria que lutar muito para se tornar um ser humano, menino de carne e osso, um desejo genuíno do próprio pai. O que existe de profundo e cíclico aqui é o fato de que todo criador tem essa vontade profunda de que sua criatura melhore, cresça, intelectual e emocionalmente, para conseguir ser reconhecido verdadeiramente como alguém, gente, humano e mais preparado para o mundo. Discurso semelhante ao de todo pai quando cobra seus filhos sobre a importância de estudar, empenhar-se na escola.
                               Claro está que uma “consciência” de boneco não estaria tão preparada ou orientada para as tentações do novo mundo que se abrira para Pinóquio. Não muito diferente do mundo de hoje, salvo na roupagem tecnológica que ganharam alguns tipos de distrações e lazeres, com certeza bem mais interessantes que as carteiras de escola e as atividades intelectuais propostas. E nesse caldeirão de influências, que no livro são representadas por criaturas inescrupulosas e enganadoras, as crianças não sabem (ou não querem) distinguir o que é mais importante para sua vida de “bonecos” deslumbrados com os espetáculos, portáteis ou massificadores, que o mundo midiático e consumista lhes oferece diariamente.
                               Ainda que haja “grilos falantes” e “fadas”, outros símbolos positivos na vida do menino, ou melhor, boneco, o grande circo de distrações e maravilhas aberto aos seus olhos e à sua imaginação funciona como o anestésico atrofiador de algum rasgo de consciência que seus verdadeiros amigos possam esperar de sua atitude. E a mentira entra como parte desse aprendizado torto, onde levar vantagem e não ser punido nem sempre conseguem impedir seu “nariz” comprido de denunciá-lo, e muitas vezes de se envergonhar. Já que ainda é um boneco-menino e não aprendeu certas malícias reservadas à vida de adulto.
                               O recurso utilizado como representação também simbólica de que, assim como Pinóquio, os meninos que fugiam da escola, acabavam se emburrecendo, literalmente (inclusive nos aspectos físicos e na mudança do jeito de falar quase zurrando), sugere o distanciamento que hoje se pode constatar entre o ir à escola, mas não querer frequentar as aulas, justamente porque o trabalho intelectual a ser enfrentado não é percebido pelos meninos como importante e educativo. E o boneco paga um preço por não querer se instruir, e construir uma mentalidade intelectual, que é ver-se na pele (literalmente) de todos os meninos-burros mostrados pelo narrador como fugitivos das aulas. Nesse ponto da história, Gepeto já nem sabe mais do paradeiro de sua criatura, concretamente perdida, tanto para o mundo externo quanto no seu mundinho interno. E que depois vai virar comida de peixe, outra brilhante metáfora para o quase-fim, ou quase-morte, alimentada pelo próprio Pinóquio, ao se afastar enormemente da educação proposta pelo seu criador, e por ter somente orelhas de um burro, já que nem assim conseguia dar ouvidos aos conselhos de sua “consciência” (o grilo), ou de sua influência boa (a fada). Qualquer semelhança com o que acontece com nossos meninos aprendizes da modernidade não é mera coincidência.
                               A transformação gradativa do boneco para virar um menino ainda impõe obstáculos bíblicos, tornando muitos momentos do final da narrativa opressivos e tristes, quando pensamos que se trata de uma “criança”. A dificuldade final que se coloca a Pinóquio, e que vai funcionar como prova material de sua mudança de atitude, é o resgate de seu criador, engolido por uma enorme baleia. Imaginação à parte, a sobrevivência de Gepeto fez-se necessária para que a história mais uma vez nos premiasse com a maior parábola da Vida: o ciclo tinha que se completar para que criador e criatura pudessem se reencontrar. E que nessa revelação causada pela nova atitude do boneco estivesse implícita a vontade de mostrar ao “pai” o novo ser que se tornou, mesmo ainda sendo “boneco” de madeira. Enfim, Gepeto é encontrado pelo “filho” arrependido e fica feliz por finalmente conseguir que o mesmo se torne um ser humano de verdade (ainda que haja a intervenção da fada boa nessa metamorfose). Agora, Pinóquio tem possibilidades de ser mais feliz, sem esquecer que poderia ter evitado todos os percalços cinzentos e sofridos pelos quais passou desde o começo de sua criação, se houvesse mantido uma postura mais de menino, e menos de boneco. Mais de ser “humano” e menos de marionete, mais intelectual e menos alienado da realidade.
               
(PINÓQUIO, traduzido e versionado em vários idiomas, é do italiano Carlo Collodi).

* César Pavezzi é pseudônimo de Fernando César Ferreira, autor desse ensaio.